Diversão de luxo

Foi-se o tempo em que o videogame da moda era uma opção de diversão acessível. Quem cresceu jogando num Master System, Mega Drive ou Super Nintendo sabe muito bem que, desde aquela época, esse tipo de diversão não era algo muito barato – exigia um tantinho de sacrifício dos pais para talvez parcelar a compra do brinquedo em algumas prestações.

Todavia, era algo possível. Tínhamos uma indústria nacional de jogos. A Tec Toy, representante da Sega no Brasil, fabricava seus consoles aqui mesmo, na Zona Franca de Manaus. Seus videogames faziam muito sucesso e a empresa chegou a dominar cerca de 70% do mercado. Seu êxito atraiu a atenção da Nintendo, que desembarcou por aqui pouco depois representada pela Playtronic – uma join venture formada pela Estrela e Gradiente, posteriormente controlada apenas por esta última. Com tanta empolgação, o Brasil ocupava em 1994 o quarto lugar no mercado mundial de videogames – perdia apenas para os Estados Unidos, Japão e União Européia.

Em 1996, a geração 32 bits (Sega Saturn e Sony PlayStation) começou a ganhar espaço. E a Nintendo lançou seu Nintendo 64. Como sempre, Tec Toy e Gradiente lançaram os consoles por aqui quase que ao mesmo tempo em que saíram lá fora. O preço… bem, continuava salgado. Mas ainda era algo possível. Ainda assim, as vendas não decolaram. O motivo? A febre PlayStation.

O revolucionário console da Sony dominou o mercado mundial pela variedade, qualidade e ineditismo de seus jogos. Mas no Brasil, venceu especialmente por um quesito: a pirataria desenfreada. O console importado era mais barato que um Sega Saturn ou Nintendo 64 nacionais. Em qualquer esquina, um lançamento podia ser encontrado em sua versão “alternativa” por menos de dez reais. Os jogadores, acostumados a gastar dinheiro em locações e a fazer economias para comprar um jogo original a cada dois ou três meses, viram seu acervo aumentar como que num passe de mágica. Entretanto, não desconfiavam que esse frenesi seria o responsável pela derrocada de nossa indústria. Já nessa época, Tec Toy e Gradiente começaram a dar sinais de fraqueza. A primeira chegou a pedir concordata em 1999. A outra, simplesmente abandonou o suporte à marca Nintendo poucos anos depois. E o resultado é que, hoje, o Brasil é apenas o 15º colocado no ranking mundial da indústria de games.

Ok, porque toda esta história? Bem, serei direto: hoje, os videogames são o produto mais rentável da indústria de entretenimento. Há vários anos já desbancaram o cinema. As vendas batem recordes atrás de recordes. Lá fora, há filas e mais filas a cada lançamento de um novo console. É um setor que influencia a cultura jovem tanto quanto a televisão ou a música. E, mesmo assim, é tratado pelo nosso governo como um jogo de azar.

Nesta semana, a Microsoft anunciou o lançamento oficial de sua nova máquina, o Xbox 360, aqui em terras tupiniquins. É a primeira vez que um videogame é lançado de forma oficial em nosso território pela própria fabricante. Uma iniciativa realmente louvável. O preço do aparelho, porém, é um ultraje: R$ 2.999,00!!! :o

Não pára por aí. Em breve, a Nintendo – através de uma importadora – colocará à venda por aqui seu novo console, o Wii. Dentre os novos videogames, ele seria uma opção bem mais barata. Não foi o que vimos assim que revelaram o preço oficial: R$ 2.399,00!!! Uau, isso é realmente uma pechincha…

E os entusiastas do PlayStation agora podem ver a euforia de dez anos atrás virar desespero. A terceira versão do console, como sempre, não chegará ao país de forma oficial. Porém, mesmo a versão importada do aparelho promete causar espanto. Não apenas por sua tecnologia, mas pelo valor. Quem quiser ter um PS3 por aqui vai ter de se preparar para desembolsar cerca de R$ 5.000,00. Sim, cinco mil pilas! E com um “agravante”: por usar uma mídia nova, o Blu-ray, tão cedo a pirataria de jogos não aparecerá. E com isso, uma das maiores “vantagens” do sistema cai por terra.

O desmantelamento de nossa indústria ocorreu por culpa única e exclusiva dos próprios jogadores brasileiros. O “Preisteichon” fez o videogame se popularizar como nunca por aqui, com CDs sendo vendidos aos baldes nos camelôs. Grandes lançamentos eram adquiridos com facilidade impressionante e a um preço irrisório. Coisa que já não se repetiu com tanta intensidade na geração atual de videogames. Apenas agora, no fim de seu ciclo, o PS2 apresenta um preço acessível às classes menos abastadas.

Agora, quanto aos videogames da chamada nova geração, só nos resta lamentar. Ou torcer para que a iniciativa da Microsoft encoraje nosso governo a diminuir as tarifações absurdas, atraindo mais empresas para cá e gerando investimentos que recuperem a posição que verdadeiramente merecemos: a de um dos maiores mercados de videogames do mundo.

10 Respostas para “Diversão de luxo”


  1. 1 Marco Túlio 13 novembro, 2006 às 1:42 pm

    Muito bom o post. Muito bem escrito e com referências. Meus parabéns! À propósito: quando saí um novo “trailer” de A Vaca?

    Resposta: Marco Túlio, não há previsão de um novo ‘trailer’ de “A Vaca”. Mas fique ligado que em breve teremos novidades na seção de downloads… incluindo o MUGIDO DA BIZONHA!!! Não é sensacional?!? :D :D

  2. 2 Gobr 13 novembro, 2006 às 1:47 pm

    Texto realmente MUITO bom.

    Espero que os próximos sejam assim também.

  3. 3 JustLink 13 novembro, 2006 às 1:58 pm

    Sim, isso tudo me deixe bem triste…

    Mas, quem quer alguma coisa realmente arranja um jeito de conseguir. xD Vamos ver o que acontece no futuro. =o

  4. 4 Eldinha 13 novembro, 2006 às 2:03 pm

    Bud, bud, bud…I miss you so much rsrsr rimou!!
    Saudade de todos vcs!!
    Bjo

  5. 5 Perera 13 novembro, 2006 às 5:57 pm

    Seu Texto reflete realmente o que aconteceu por aqui..
    agora vai ser cada vez mais díficil ter pirataria nos video games …

    já temos iniciativa da microsoft agora falta esse governo de merda seguir o contexto.. que é dificil.

  6. 6 George M. 14 novembro, 2006 às 1:27 pm

    Ótima análise!

    Sou do tempo do Master System, e é fato que naquela época o “consumo” de um produto como o videogame era bem alto.

    Bom, como você falou, o Xbox da Microsoft custa 3 mil pratas. Parece que as coisas não andam mudando muito…

  7. 7 DamionKutaeff 23 março, 2008 às 12:23 pm

    Hello everybody, my name is Damion, and I’m glad to join your conmunity,
    and wish to assit as far as possible.


  1. 1 A nova geração é uma farsa « budrush.com Trackback em 17 novembro, 2007 às 12:27 pm
  2. 2 Por que a Nintendo voltará ao topo « budrush.com Trackback em 5 janeiro, 2008 às 12:23 pm
  3. 3 Ubisoft no Brasil: desafios e perspectivas « budrush.com Trackback em 25 junho, 2008 às 1:44 am

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