Abafa o caso

Caso encerrado? Hummm, sei não...

Caso encerrado? Hummm, sei não...

Sensacionalismo e requintes novelescos marcam a cobertura da imprensa sobre o Caso Isabella; audiência dos telejornais sobe quase 50% e Globo dá ao fato tratamento similar ao 11 de setembro e os ataques do PCC

Para a polícia, os resultados da perícia são muito claros: Alexandre Nardoni, o pai de Isabella, jogou-a pela janela minutos após a madrasta, Anna Carolina Jatobá, tê-la asfixiado. Os dois teriam combinado jogar a menina seis andares abaixo para tentar encobrir o que eles pensavam já ser um assassinato. Um verdadeiro show de horror. Show esse que, inadvertidamente, todos acompanharam atentamente pela imprensa – especialmente pela televisão.

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Muito antes de a polícia dar o seu veredicto, Alexandre e Anna Carolina já haviam sido declarados culpados pela imprensa. Programas sensacionalistas reforçavam a cada dia, com base nos relatórios nem sempre claros ou oficiais que vazavam da polícia, novas versões para o incidente. Mesmo a chamada “grande imprensa” não deixou de cometer os seus deslizes. Ela parece não ter aprendido a lição com o caso da Escola Base, em 1994. Para quem não lembra dessa história, uma rápida recapitulação: em março desse ano, a imprensa publicou reportagens sobre seis pessoas que estariam envolvidas com abuso sexual de crianças, alunas da escola. Jornais, revistas e emissoras de rádio e TV basearam-se em fontes oficiais – polícia e laudos médicos – e em depoimentos de pais de alunos. Mas tratava-se de um erro. Quando tudo foi descoberto, a escola já havia sido depredada, os donos estavam falidos e estes eram ameaçados de morte em telefonemas anônimos.

É evidente que um caso como o de Isabella provoca forte comoção na sociedade, que anseia por obter respostas rápidas para um crime tão chocante. Mas o que vimos nos últimos dias foi uma espetacularização do horror. Transformaram o caso numa novela policial, num CSI tupiniquim. Enquanto os laudos não ficavam prontos, muitos foram julgados em praça pública. Chegaram a suspeitar do zelador e de um pedreiro que trabalhava no prédio – ambos passaram a ser devidamente demonizados assim que a suspeita repercutiu para fora de onde deveria estar: no sigilo da investigação criminal.

Enquanto detalhes de uma perícia ainda não concluída eram escancarados na mídia, a opinião pública via-se induzida a odiar os vilões da vez. Oras, quem não ficaria chocado com tantas informações sobre o estado do corpo da criança depois da queda? Quem não ficaria apreensivo com os detalhes reveladores que uma suposta nova testemunha teria a dizer? A falta de critério acaba banalizando a tragédia: tanta violência gera ainda mais ferocidade.

Quando o espetáculo do horror consegue atrair a atenção do público, arma-se na mídia um perigoso self-service que oferece ao espectador opções para todos os gostos. Segundo Daniel Castro, colunista da Folha de S.Paulo, a audiência dos telejornais chegou a crescer 46% com a overdose de informações sobre o Caso Isabella. Curiosamente, os que mais cresceram foram os mais sensacionalistas: o Brasil Urgente, da Band, e o Balanço Geral, da Record. Este último chegou a ter em seu cenário uma reprodução da cama de Isabella, que era manchada pelo apresentador Geraldo Luís com uma tinta vermelha. Ao som de uma trilha sonora fúnebre, o apresentador demonstrava como age um produto usado pela polícia para descobrir vestígios de sangue.

Nessa seara sensacionalista, não poderia ficar de fora o tradicional Superpop, da RedeTV!. Luciana Gimenez recebeu um alterado Marcelo Rezende, que “reconstituiu” o crime no palco do programa – aliás, até o Fala que Eu Te Escuto, da Record/Igreja Universal, fez a sua versão.

Enquanto isso, a Globo deu ao caso um tratamento que só havia dedicado a fatos como o 11 de setembro, os ataques do PCC e a visita do Papa ao país: exibiu um SPTV especial com três horas e 16 minutos de duração, sem intervalos comerciais. No Jornal Nacional, a cobertura chegou a ocupar mais de quinze minutos da edição do dia 15/4, o equivalente a quase 40% da duração do telejornal. Demos graças a Deus por Páginas da Vida já ter acabado há muito tempo: não fosse assim, certamente a mãe da menina teria sido convidada a dar um depoimento ao final da novela. :|

Enfim, todas as evidências apontam para o pai e a madrasta da menina Isabella como sendo os culpados por sua morte. Mas será que o caso está mesmo encerrado? Eu não teria assim tanta certeza.

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Atualização em 21/4: O Fantástico exibiu ontem uma entrevista com os pais da menina. Apesar de isso não mudar nada no inquérito policial, foi uma oportunidade de o grande público conferir o outro lado da moeda. Em tempo: a entrevista rendeu picos de 42 pontos no ibope e a maior média de audiência ao programa em vários meses.

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Imagem do post: montagem sobre fotos de divulgação

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Leia também: O que vamos fazer?, O Brasil sufocado

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8 Respostas para “Abafa o caso”


  1. 1 paulo cesar 20 Abril, 2008 às 7:54 pm

    Realmente esse caso tá muito enrolado. Eu também aposto que ainda vai aparecer alguma coisa surpreendente por aí.

  2. 2 squirrel 21 Abril, 2008 às 12:44 am

    Putz, acabei de ver a entrevista do pai e da madrastra no Fantástico… realmente o negócio tá embaçado pra kct naum sei mais em quem acreditar.
    Vou ter q concordar com vcs e dizer que auinda vem chumbo grosso por aí…. :P

  3. 3 Gustavo Oliveira 23 Abril, 2008 às 5:34 pm

    Achei esse caso uma espeulação gigante. Nunca vi coisa igual. O sensacionalismo comeu solto e o povo realmente abraçou a causa.

    Muitas coisas me indignaram nesse caso:

    – A morte da menina em si.
    – A mídia que já na primeira semana, indiretamente já dizia “foi o pai”.
    – A falta de respeito da mídia com os parentes dos acusados. Se Ana Carolina e Alexandre mataram a menina, isso a polícia vai dizer. Agora, filmar e mostrar a frente da casa dos familiares do casal, é mancada fortíssima. Muitos carros foram mostrados (inclusive as placas desses carros, de pessoas que nada tem a ver com a história), as casas foram mostradas, os bairros revelados, enfim, um fiasco total. Acabou com a vida da família. Se eu cometo um crime, eu devo pagar por ele, não a minha mãe.
    – A população, que depredou a casa de quem aparecesse na TV.
    – Geraldo Luiz e Datena.
    – Os milhares de “roberts” que vieram prestar depoimento só para aparecer.
    – As centenas de milhares de “roberts” que foram prestar homenagem a mãe da menina e cantar parabens pra ela sem nem mesmo a conhecer…
    – A imprensa (novamente) que agora, está sugando a imagem da mãe da menina. Até Padre Marcelo está tirando uma lasquinha…
    – A superexposição do caso. Não se fala em outra coisa. Nos últimos dias só sei que a Isabella morreu. Se eu fosse deputado, aproveitaria essa brecha pra roubar um monte de dinheiro, tendo a consciência de que ninguém ficaria sabendo.

    Enfim, quase tudo nesse caso me irritou.
    DAMMIT!

  4. 4 Rodrigo Budrush 23 Abril, 2008 às 6:10 pm

    Pois é, Gustavim, é muito gás. E gases nem um pouco nobres. :P

  5. 6 Ana Maria 31 Maio, 2008 às 11:37 am

    O tenente pedófilo fez varredura no prédio do caso isabela e poderia esconder algum coleguinha e depois ainda mentiu dizendo que o pai havia dito que viu ladrão,
    Tá na cara que ele foi o estupim da desconfiança da polícia.
    E agora? Srá que o promotor que deveria ser fiscal da lei ao invéz de justiceiro na mídia não vai fazer alguma coisa para investigar?
    Espero que a família Nardoni contrate detetives particulares e acabe de desmoralizar a polícia que está no ABAFA O CASO para o bem de todos.


  1. 1 Crianças voadoras « budrush.com Trackback em 1 Julho, 2008 às 3:35 pm
  2. 2 Retrospectiva 2008 - Geral « budrush.com | diversão + reflexão Trackback em 14 Dezembro, 2008 às 6:39 pm

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  • É... parece que meu computador resolveu ressuscitar sozinho. Vai entender essas tréquinologias. =`P 2 hours ago
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